Livro Flores amarelas

Livros – Rio de Janeiro, RJ

Flores amarelas

Faltam mil reais para alcançarmos a meta e termos os recursos necessários para a produção do livro. É o valor de 25 exemplares. Estamos quase lá.

Faça a sua contribuição. Convide um amigo para conhecer a campanha.

Os recursos com a venda desse livro ajudarão a Casa de Lázaro e o Fórum permanente sobre população adulta em situação de rua.

Espalhe flores amarelas pelo caminho.

O que te incomoda?

- O que mais te incomoda?
- Tá vendo aquela senhora com vestido branco? Sempre que ela passa por aqui, aperta a bolsa embaixo do braço e, quando pode, atravessa a rua.

- O que mais te incomoda?
- Fico aqui deitado embaixo desta marquise e as pessoas passam sem me ver. Tem hora que acho que vão pisar em mim.

Em nossos encontros, preconceito e invisibilidade são os assuntos campeões.

- O que é preconceito? - pergunto ao grupo.
- É o que pensam da gente sem nos conhecer - responde um.
- É quando só sabem um lado da história - ensina outro.

- Como se acaba com o preconceito?
- As pessoas precisam conversar com a gente.

Na sequência desse bate-papo decidimos criar o "Despertar pra vida". A manchete principal da primeira edição foi: "Moradores de rua lançam jornal", acima de uma foto do grupo.

Quem via o jornal se perguntava como uma pessoa que ele tinha o costume de ver caído na sarjeta estava na capa de um jornal que ele mesmo criara. Por outro lado, os sem- teto passavam a acreditar que se podiam fazer um jornal, podiam sair daquela situação.

Flores amarelas é um livro com histórias que vão te ajudar a dialogar com quem mora na rua. Quanto mais gente se envolver nessa conversa, menor será o preconceito e o caminho para sair da rua se tornará menos penoso.

Ajude a ampliar o alcance dessa mensagem. Divulgue a campanha para a publicação de Flores amarelas e vamos fazer nossa cidade mais acolhedora.

Dia do assistente social

Hoje, 15 de maio, é dia do assistente social, minha profissão. Tem sempre quem me pergunta como é trabalhar com quem mora na rua. Então deixa eu contar uma história.

Uma das pessoas que atendi nas ruas sempre pedia uma cesta básica. Trocava os mantimentos por um espaço na varanda de um casebre. Mas o programa de distribuição de alimentos havia acabado porque a Bolsa Família estava começando a ser distribuída para os mais pobres. Sem cesta básica não tinha varanda. Ofereci abrigo, documentos, saúde. Ele queria comida, casa e acesso à justiça. A gente não se encontrava na oferta e na demanda. Às vezes ele aceitava o que propunha na esperança de que eu atendesse seus pedidos. Percebi que eu estava parecendo muito com um gerente de banco concedendo ou negando empréstimos. Decidi convidá-lo para uma coca cola na padaria. Falamos de futebol, política, lembramos de boas histórias. Nenhum pedido, nenhuma oferta. No final ele perguntou quando voltaríamos. "Quem convida, paga a conta," eu disse. Na semana seguinte estávamos novamente na padaria. Desta vez não gastei nenhum centavo. Ele ficou ainda mais feliz. Sentiu-se gente novamente.

Então é isso. A gente procura entender o que as pessoas precisam e busca os caminhos para que todo mundo tenha o direito de brilhar.

Aproveite essa data e dê meu livro Flores amarelas de presente para um(a) assistente social que você conheça.

Flores amarelas

Pessoas que moram nas ruas sempre foram assunto para boas histórias. Bem no início do século XX, João do Rio nos brinda com a história do mendigo original, Justino Antônio, que nos ensina que tudo é inútil. No ano em que nasci, Rubem Fonseca e Caio Fernando Abreu publicam respectivamente O outro e Creme de Alface, que escancaram a forma como olhamos para nós mesmos. Mais recentemente, Eliane Brum, a maior jornalista da atualidade, nos apresenta Sapo, que na verdade é Alverindo. Ela nos mostra a importância de desviar o olhar e nos ajuda a enxergar a história que ninguém vê.

A gente costuma olhar para quem mora na rua como vagabundos ou pobre coitados. E por que olhamos assim os tratamos com violência ou de forma infantilizada. De um jeito ou de outro desconsideramos que cada um é dono de sua própria história.

A primeira família que conheci na rua era
formada por duas mulheres e um homem. Imagina o que isso significava para alguém com a formação evangélica e conservadora como a minha. Um dia ele estava bêbado e quis agredir a companheira mais
velha. A mais nova pegou uma pedra e se colocou na frente da amiga. Ele correu para o outro lado da rua. De madrugada, o homem era quem protegia as mulheres de serem molestadas. Eu havia acabado de
casar e aprendi com aquela família a respeitar a bagagem diferente que minha esposa trazia. Aprendi que não nos cabe julgar o modo como os outros vivem.

Os personagens das histórias contadas neste livro me ajudaram a abrir os olhos e moldaram minha própria vida. Minha torcida é que te ajudem a olhar para o outro como gostamos que olhem para a gente mesmo: com respeito por nossa própria história. Mas atenção! Quando mudamos a direção do nosso olhar, mudamos também a direção que caminhamos. Vamos?

O livro

Aqui em casa a fera na escrita é a Cíntia. Uma sensibilidade, um carinho com as palavras... Cíntia é poesia.

Já Lucas e Lorenzo nos ensinam a ver. Ontem, por exemplo, fiz um frango frito e Lorenzo perguntou:
- Que isso, pai?
- O ossinho do frango.
- Eu gostei do ossinho. Parece um chocolate.

Quem, além das crianças, consegue ver chocolate num pedacinho de pele, osso e hormônio frito?

Quando decidi escrever um livro queria compartilhar o que aprendi na rua. Já tinha a terça parte pronta. Explicava a metodologia que usava no trabalho e a ilustrava com algumas histórias. Até que fiz um curso de férias na Estação das Letras. José Castello, ganhador de dois Jabutis, ao ver o que eu já tinha escrito, me aconselhou: "esqueça esse discurso e fique com as histórias".

Aceitei o conselho e comecei a reescrever o livro. Só com histórias de minhas andanças pela rua. O público se amplia e a leitura fica mais agradável, sem deixar de tocar em questões difíceis pra gente pensar.

Ao terminar, outro craque, Márcio Vassallo, me ajudou a limpar o texto. Assim que lhe entreguei o manuscrito avisei que não era escritor na esperança de que ele pegasse leve e não me mandasse reescrever tudo. Quando cheguei para sua consultoria literária, me perguntou: Como está seu tempo? Fiquei nervoso. Tá me perguntando isso porque vai querer que eu mude tanta coisa que vou precisar de um ano sabático, pensei.

Ele só queria saber até que horas poderíamos conversar sobre o texto. Saí daquela tarde feliz com seu reconhecimento do potencial e originalidade do livro Flores amarelas.

Tomara que você também goste.